Sabe aqueles textos que eu poderia ter escrito e não escrevi? Que eu te mandava e você tinha certeza que eram meus?
Hoje li esse e queria que vc me mandasse, pra que eu sentisse que mesmo longe, mesmo do outro lado do mundo, mesmo com a vida que segue aí, você ainda não me esqueceu.
Ledo engano
Por Gabito Nunes
Não fala nada, só me escuta. Bem, não sei direito por onde iniciar, não preparei nada, até porque não tinha ideia de qual seria minha reação ao tocar os pés em Porto Alegre outra vez. Eu voltei hoje. Quer dizer, agora. Ainda estou aqui, no aeroporto, pra dizer a verdade. Tem gente me esperando, tenho tantos amigos pra rever, coisas pra contar, toda uma viagem de sete anos pra descrever. Mas eu só consegui pensar em você, garota. Chegar e poder abraçar meus pais, meus irmãos, me faz bem. Mas, com você, sei lá, te ver de novo, te abraçar, sentir o perfume nos seus cabelos, sete anos depois, imaginar isso explode um sorriso no meu rosto, eu fico delirantemente feliz.
Eu sei, fui egoísta. Larguei tudo pra trás, quem eu penso que sou pra sonhar que tudo é como foi? Ninguém. Sei enxergar isso. A gente tem fome de tudo, luta contra a morte o tempo inteiro e esquece que provavelmente o amor é maior que as duas coisas juntas. Mas isso você se dá conta quando pisa os tênis sujos de mundo no seu velho lugar, e a pessoa que você em momento algum se esqueceu de lembrar não está lá pra te receber. Eu quis manter todas as minhas opções abertas e agora estou pedindo perdão pela minha incapacidade de me prender, de ficar. Não é irônico?
Você terá todo o tempo do universo pra me odiar. Por isso eu peço, espera, me deixa terminar. Preciso falar, tenho pressa e preciso ser rápido, se quiser alcançar o calcanhar do passado. Olha, eu gosto de você. Eu realmente achei que poderia beijar sua testa, sentir duas semanas de dor misturada com a empolgação de sofrer na Inglaterra, e depois sentir que tudo bem, se eu nunca mais pudesse vê-la. Eu me iludi achando que mesmo muito longe, talvez compartilhando fotografias e mensagens eletrônicas breves, nós daríamos um jeito de estar junto, próximos, ligados. Ledo engano. Eu pedi pra você esperar, você me olhou com aquela inesquecível feição de - eu espero, se você esperar aqui comigo.
Sim, estamos falando de sete anos. Sete! Que direito eu tenho? Talvez você esteja casada e com filhos, embora não soe muito como a sua cara. Mas fica quieta, não diz nada, deixa eu continuar assim que reaver meu fôlego. Bem, eu estou sozinho. Eu andei sozinho. Eu queria me encontrar, achei que lendo Nick Hornby em Holloway ou pegando algum trem noturno escutando Ian Curtis, tudo isso aconteceria naturalmente. A má notícia é que Londres tem dias escuros e noites mais negras ainda, coisa que salienta o brilho das estrelas. E isso me fazia desejar o que não estava perto. São sete anos sem olhar para o céu. Só me achei quando pousei e vi uma criança pulando no abraço de alguém que ama muito e não via há várias estações. Eu quis aquilo pra mim.
A gente dá as costas para as emoções fortes em nome do conforto, porque consideramos que o conforto é o melhor. Não sabemos sentir o que é realmente importante e bom. Essa vontade estúpida de sair por aí querendo não perder nada acabou me fazendo perder tudo. Perder você, perder manhãs que eu podia ter acordado do teu lado, perder a ideia de passear contigo num parque, só soltando sua mão pra achar um trocado que pague uma coca-cola gelada. Sete anos é tarde demais pra chorar de saudade? Como assim? Qual o número aí? Desculpa, foi engano meu. Esquece tudo que eu falei, senhora.
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