
Faz umas três semanas que eu comecei a ouvir uma rádio de pagode, todas as manhãs, para me animar. Até que, segunda-feira, resolvi ir pro trabalho um pouquinho mais cedo, pois não tinha conseguido dormir. Liguei o celular e sintonizei aquela rádio. Pra minha surpresa, quem estava falando? O Padre Abério Christie.
Eu sei que pra maioria das pessoas isso não significa nada, mas pra mim, teve um sentido absurdo. Passei toda minha infância ouvindo as bênçãos do Padre Abério com minha avó e, desde que ela faleceu, há 11 anos, nunca mais tinha escutado falar dele.
Bem nesse dia seu sermão falava sobre nada ser coincidência e sim providência de Deus.
Pensei muito nisso a segunda inteira e me senti extremamente confortada.
Mas a correria do dia a dia me fez esquecer disso. Trabalhei demais, fiquei irritada, perdi a paciência e fiquei doente. E, quando tudo dá errado, quem consegue manter a fé?
Entrei no metrô hoje desejando apenas que meu dia passasse logo. Até que uma moça sentou com sua filha na minha frente. A menina, aparentando ter uns 4 anos, ficou me olhando fixamente. Normalmente, eu gosto de crianças. Mas hoje, hoje não. Olhei pra ela e resolvi ignorar. Pensei: Que droga, eu querendo dormir e essa menina me encarando.
Quando fechei os olhos para dar aquela dormidinha básica, senti uma mão em mim. Acordei assustada e olhei. A menina pentelha tinha me chamado, por que queria me dar um chiclete.
Comecei a falar com ela e ela não respondia, só sorria. Então a mãe dela me contou que ela tinha um problema de formação no pulmão e não conseguia falar. Começamos a conversar só por gestos e, quando ela me mostrou sua sandália, eu sorri. Na linguagem dos gestos, ela pediu para a mãe dela me dizer que meu sorriso era lindo e que eu não devia ficar tão séria.
Naquela hora tudo parou e eu realmente vi um filme passar na minha cabeça: todos esses últimos dias desanimada, toda a vontade de desistir, as reclamações, a vontade de chorar e por fim, a menina do metro e o padre falando na rádio.
Quando a mãe dela me disse que ela seria internada em poucos minutos para fazer uma cirurgia, ela falou, novamente por meio de gestos: vou ficar boa e poder conversar com você, moça.
Nada é coincidência mesmo, pensei. Tive que encontrar uma menina tão pequena, ainda frágil, para ela me ensinar que a gente não pode se deixar abater. A Kelly, com seus quatro aninhos e sem palavras, apenas com o olhar, me fez acreditar no poder de um sorriso e na importância de manter a fé.
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