terça-feira, 2 de novembro de 2010

A poesia da minha tia





“Veio alguém bateu na porta, vacilei não quis abrir.

Pensei que fosse a saudade, que vive a me perseguir.

Bateu de novo com força, mas depois não insistiu.

Desceu as escadas em silêncio e para sempre partiu.

Partiu deixando na porta essas palavras fatais:


Eu sou a felicidade e não voltarei jamais”.


Eu nem sabia ler direito quando minha tia escreveu esse poema no meu caderninho de recordações. Eu imaginava uma gota grande, azul e brilhante subindo as escadas do sobrado da minha tia e batendo na porta do quarto dela. Para não abrir, com medo, ela ficava deitada embaixo do cobertor.

Perdi a conta de quantas vezes imaginei essa cena e hoje, quando acordei, lembrei dessa poesia e de novo veio a imagem da felicidade que, durante anos, pra mim, foi materializada em uma gota azul que andava de um lado para o outro esperando alguém abrir a porta e aceitá-la. Passaram-se quase 16 anos e só agora essas palavras fazem sentido para mim.

Queria acreditar que todos aqueles nãos que disse aos caras que tentaram entrar na minha vida nesses últimos oito meses foram corretos, mas não. Perdi a chance de abrir a porta para o novo por medo de sentir aquela coisa ruim da despedida de novo.


Não quis andar de mãos dadas - Já pensou se alguém me vê com ele?

Não aceitei ir ao cinema – Ver filme é coisa de namorado

Desmarquei milhares de jantares – Prefiro ficar com as amigas

Cantei músicas exaltando a vida de solteira – Dizem que é melhor ficar sozinha do que mal acompanhada

Deixei aquele cara gato me esperando sem avisar que não ia vê-lo – Eu tava cansada, juro.

Não atendi as ligações depois daquele beijo – Não encaixou, sabe? Ou eles beijavam molhado demais, ou devagar, ou seco e sem graça.

Mas só agora, nessa terça-feira típica de primavera, com o sol batendo na minha janela, me senti sozinha e aí, lembrando da poesia da minha tia pensei: quantas portas deixei fechadas por medo de sofrer? Quantas oportunidades joguei fora tentando não me envolver? Quantos momentos não vivi me apegando ao que já tinha acabado?

Sai medo, sai... Não vou mais dar chance a esse sentimento ruim que me impede de ser feliz, vou dar uma chance a mim, pq só eu posso abrir a porta pra felicidade entrar, antes que ela desista de me alcançar.

Um comentário:

Unknown disse...

Juro que do começo ao final senti meus pelinhos saltando umas 5 vezes! Arrepiuuu, arrepiu....
Vivemos fases iguais em tempos iguais ou tudo isso é natural sentir?

Adorei o texto, e mais uma vez eu repito, vamos largar a panela e sentir emoções diferentes?

Natacha Braido

Eu te amo, minha escritora preferida